Campinas torna-se uma boa escolha para haitianos
- 3 de dez. de 2019
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Atualizado: 9 de dez. de 2019
Maior cidade da RMC tem sido a opção para imigrantes que buscam uma vida melhor fora do país de origem
Texto e imagens por Matheus Pereira da Silva
As palavras “Eu vos declaro marido e mulher” aconteceram no dia 26 de janeiro de 2018 para Libonheuer Esperance, de 30 anos e Waliane Ceus, de 28, mas a história começou no Haiti há oito anos em uma situação inusitada nos tempos de faculdade, quando Libonheur a pediu em casamento no dia que se conheceram. Libonheuer se mudou para cidade de Waliane para fazer sua faculdade de Letras, mas não sabia que iria acabar conhecendo sua futura esposa.
“Ele se mudou para minha rua e no dia em que nós nos conhecemos ele falou que eu seria a mulher que seria a esposa dele. Eu fiquei assustada e recusei porque queria terminar meus estudos antes de pensar em relacionamento sério, mas não tinha descartado a possibilidade totalmente”. Waliane disse que depois de recusar a proposta várias vezes ele pediu ao menos para serem amigos, mas as palavras do haitiano ficaram ‘martelando’ em sua cabeça “Eu recusava por que queria me formar antes”. Libonheuer e Waliane mantiveram a amizade por dois anos, até que seu pai pediu para ela viajar para o Brasil em busca de uma melhoria de vida.
O avião vindo do Haiti pousou no Acre e, de ônibus, Waliane veio a São Paulo, foi para Indaiatuba até chegar em Campinas. Após três anos morando longe de sua terra natal, a haitiana ainda lembrava das palavras de Libonheur: “Nesse tempo eu não me relacionei com ninguém porque eu orava a Deus falando que eu queria ser a mulher de apenas um homem”.
Curtindo sua solidão em um país desconhecido e com a lembrança da promessa de Libonheuer, que nunca esquecera, fez de tido para ajudar ele vir para o Brasil. Em 2017 o professor de filosofia e literatura haitiana conseguiu seu visto de Porto Príncipe para São Paulo.
Quando Libonheuer chegou em solo brasileiro e foi morar no bairro Campo Grande, a mulher, que seria sua futura esposa, morava no Jardim das Oliveiras que fica cerca de 25Km de distância. Eles só foram a morar juntos depois que casaram.

Libonheuer Esperance e Waliane Ceus que se casaram
recentemente, estão a espera de seu primeiro filho
Libonheuer Esperance e Waliane Ceus são um dos mil e quinhentos imigrantes haitianos que moram em Campinas e tiveram seus dados cadastrados, segundo a Prefeitura de Campinas, em levantamento feito no começo deste ano.
Estes imigrantes estão majoritariamente concentrados na região do Ouro Verde, CDHU, Campo Grande, Barão Geraldo e Região Central da cidade.

Imigrantes e refugiados
O termo “imigrante” é erroneamenteusado como sinônimo de “refugiado”. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a palavra refugiado se refere a pessoas que foram obrigadas a sair de seu país devido a conflitos armados ou perseguições e não podem voltar para sua pátria, diferente dos imigrantes que escolheram sair de seu país, na maioria das vezes em busca de melhoria de vida, mas eles seguem amparados pelo do país de origem.
O perfil do imigrante haitiano segundo a prefeitura são majoritariamente homens entre 18 a 25 anos, com ensino superior e pouca experiência em serviços braçais. Entretanto, após o segundo semestre de 2015, começaram a chegar pessoas comformação equivalente ao nosso ensino médio e fundamental, com experiência em atividades ligadas à construção civil, confecção, hotelaria, restaurantes e varejo.
Segundo dados computados pelo Observatório de Migrações em São Paulo, de 2010 a 2015 cerca de 85.000 imigrantes haitianos atravessaram áreas de fronteira e chegaram pelos aeroportos internacionais. O número corresponde sendo 63 mil homens e 22 mil mulheres.
Segundo postos de controle deste período, 44 mil imigrantes haitianos chegaramao país por fronteiras cerca de 40 mil pelos aeroportos. Os lugares preferidos para o desembarque dos haitianos é a fronteira de Epitaciolândia, no Acre, onde já desembarcaram39 mil imigrantes nesse período e o aeroporto internacional de Guarulhos com 40 mil.

Jóice Domeniconi, mestra em Demografia e integrante da equipe do Observatório explica que a migração haitiana faz parte de um novo fluxo migratório. “ Os haitianos se encaixam no que chamamos de migração Sul-Sul, que seriam um novo grupo de imigrantes, com características dos imigrantes que nós não estávamos acostumados a ver aqui, pessoas de outras etnias. Uma migração que não era muito visível”.
Explicando melhor o que é migração Sul-Sul, são grupos populacionais diversos que com a fechada das fronteiras dos países Europeus e dos Estados Unidos para imigrantes e em decorrência disso houve um aumento de migrações para países do sul do globo.
Por serem povos de etnias diferentes, fizeram com que o Brasil revisse as suas políticas públicas para atender esses contingentes “Pode-se dizer que a migração haitiana forçou o Brasil a rever suas leis migratórias, pela alta quantidade de pessoas que chegam e passaram por aqui" disse Joice Domeniconi.

Além de pesquisadora o Observatório, Jóice Domeniconi
também se voluntária em eventos para ajudar os
imigrantes e refugiados
A especialista disse que os haitianos já tem a característica de ser um povo imigrante, mas o Brasil tem sido o destino favorito deles desde o terremoto.A situação política e econômica que o país se encontra e
proximidade dos países influencia na escolha. E Campinas tem sido o destino de muitos, talvez por conta da proximidade com a capital Paulista. Para atender a entrada dos novos povos, a Prefeitura de Campinas, em 2016, criou o Serviço de Referência ao Imigrante, Refugiado e Apátrida.

O prédio do Serviço de Referência ao Imigrante, Refugiado
e Apátrida fica localizado na avenida Francisco Glicério
Berhman Garçon, fundador da Casa Cultural Haiti Brasil, localizada em Barão Geraldo, discorre sobre as principais dificuldades dos haitianos que chegam em Campinas:
Quando o imigrante haitiano chega ao Brasil, a Polícia Federal solicita um documento chamado, certidão consular, é um registro Haitiano no exterior, que é emitido pela embaixada Haitiana no Brasil. O documento tem um prazo de 45 a 60 dias uteis para ficar pronto, mas Berhman disse que o tempo pode se estender de três até seis meses: “Você fica dependo da sua família que está fora do país para te ajudar”.
“Você fica dependo da sua família que está fora do país para te ajudar”.
Alguns haitianos já foram presos pela Polícia Federal devido a falsificação de documentos. Existem relatos de brasileiros que fazem a contrafação destes registros enganando os haitianos. Como são novos no país e tem a necessidade da carteira de trabalho, acabam sendo ludibriados facilmente.
Sem a Certidão Consular, é impossível obter a Carteira de Registro Nacional Migratório, que vem a ser o RG do imigrante. Este documento deve ser apresentado na Polícia Federal dentro dos primeiros 90 dias após adentrar em solo brasileiro. Com estes documentos em mãos o imigrante está legalizado para requerer sua carteira de trabalho.
Com a ajuda Serviço de Atendimento Serviço de Referência ao Imigrante, Refugiado, a Prefeitura de Campinas está prestando auxílio aos imigrantes que chegam aqui, como disse a Secretária de Assistência Social, Eliane Jocelaine:
Apesar do grande contingente de imigrantes haitianos terem formação superior, poucas oportunidades de atuação lhes são dadas. Libonheuer, por exemplo, é formado em filosofia e letras, mas até agora não conseguiu um emprego na área: “Já pedi em vários lugares um trabalho na minha área, mas até agora não consegui, então eu vou trabalhar no que tem, porque preciso de dinheiro”.
Berhman relata que apesar ter formação em jornalismo, informática, design gráfico, pós-graduado e mestre em antropologia, se sente desperdiçado.
O haitiano que hoje trabalha como motorista de aplicativo relata já ter trabalhado com fiscal de uma rede de supermercados, recepcionista de hotel, deu aulas de idiomas, fez bicos como pesquisador para algumas empresas e durante eventos culturais, vende artesanatos e comidas típicas para complementar a renda familiar. O primeiro trabalho registrado de Berhman foi em um call Center, mas experiência não lhe agradou.
Para que os diplomas dos haitianos sejam válidos em terras tupiniquins, o documento precisa passar por uma tradução. O processo de revalidação do diploma de ensino superior é feito exclusivamente pelas universidades públicas que tenham os cursos equivalentes ao de formação do imigrante.
O art. 48, § 2º, da Lei nº 9.394 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), de 20 de dezembro de 1996, estabelece que "Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente, respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação."
O processo de validação começa no consulado ou na embaixada brasileira no Haiti, então as traduções juramentadas dos documentos necessários devem ser feitas juntos à universidade escolhida para revalidação. Após este trâmite, o imigrante deve entrar com o requerimento de revalidação na instituição selecionada.
Os preços das traduções juramentadas são calculados por laudas, uma lauda de mil caracteres sem contar espaços, varia entre R$ 60,00 e R$ 70,00. Em termos de comparação, uma certidão de casamento, nascimento ou de óbito em inglês ocupa após a tradução sete laudas, ou seja, entre R$ 420,00 a R$ 490,00. O valor da tradução dos diplomas podem chegar a mais de mil reais dependo do lugar e da estrutura de trabalho, mas existem lugares em Campinas que traduzem o documento completo por R$ 110,00.
Muitos diplomas não podem ser validados por conta de incompatibilidade com o ensino brasileiro, que é o caso de Libonheuer, que cursou letras no Haiti, mas foco lá era literatura haitiana e francesa, o que o inviabiliza da validação de sua licenciatura aqui no Brasil.
Ainda que não haja registros de haitianos vivendo em situação de rua, a moradia também tem sido um problema para eles. A união da comunidade supre essa necessidade. Em Campinas, não há um centro de acolhimento para o imigrante e o refugiado.
Os haitianos quando chegam, a primeira coisa que fazem é procurar ou por instituições que possam ajudá-los e a comunidade de sua terra natal em busca de abrigo. Acaba que haitianos abrigam outros haitianos em suas próprias residências para não deixá-los na rua.Quando questionada a Secretária de Assistência Social, Eliane Jocelaine reiterou que não há um projeto para criação de um centro de imigrantes e refugiados:
Mas Eliane Jocelaine disse que a Prefeitura está mapeando estas pessoas para conhecer a demanda e então criar algo junto do governo federal:
O mapeamento desses estrangeiros é feito por meio da RAIR que funciona como uma rede de contatos que ajuda a Prefeitura.
Berhman Garçon disse que diante da situação deste novo fluxo migratório em Campinas, a Prefeitura tem sido omissa aos cuidados com os imigrantes e refugiados:
Vendo esta demanda, a Casa Cultural Haiti Brasil, que foi criada com o intuito de dar suporte aos imigrantes haitianos e de outras nacionalidades que chegam em Campinas e necessitam de cuidados.
Comunicação
Segundo Luís Renato Vedovato: “o principal direito que eles carecem é o direito a língua”, disse Pesquisador FAPESP do projeto de pesquisa "Direito das migrações nos Tribunais - a aplicação Nova Lei de Migração Brasileira”.
As línguas oficiais do Haiti são o Francês e o Crioulo haitiano. Não há registros de quando o Crioulo foi criado, mas ela começou a se desenvolver por volta de 1680 a 1740 pela necessidade da comunicação entre escravos de origem africana e os colonos franceses. Os haitianos nunca reconheceram o Francês como sua língua oficial, que foi instituída como a principal língua do país em 1804, após a independência da primeira nação majoritariamente negra.
A língua materna haitiana só foi reconhecida como idioma co-oficial com o Francês apenas em 1987 após a nova constituição haitiana entrar em vigor, devido ao crioulo antes ser uma idioma oral, apenas em 1980 recebeu sua primeira grafia oficial, que foi fruto de um movimento da década de 40 em que os haitianos se conscientizaram do analfabetismo do país e que o Crioulo não era um dialeto francês, mas uma língua diferente e assim propuseram uma grafia correspondente a fonética.
O povo que em seu país lutava pelo direito a língua, aqui também luta. Islaura, de 43 anos, chegou ao Brasil há um ano para festa da bandeira haitiana no ano passado, mas mesmo convivendo com brasileiros diariamente, quase não consegue entender e responder perguntas básicas sem dificuldade, com “Quantos anos você tem? ”.

Mesmo com a dificuldade da haitiana em se comunicar,
não evitava que as pessoas parassem para comprar
coisas na barraquinha
Diferente de Genson João Batista que chegou aos 23 anos, há seis anos em busca de melhores oportunidades de emprego, teve dificuldades iniciais para aprender, até arrumar um emprego de açougueiro em um supermercado, dez dias após chegar. “O pessoal onde eu trabalho só falava português e o pessoal ia me ajudando, e assim eu aprendi a língua”.
Mas nem todos são com Genson que aprendem a língua no convívio social. A Prefeitura trabalha junto com o EJA, Educação de Jovens, Adultos e Idosos, com uma classe específica voltada para educação e alfabetização de imigrantes e refugiados. Pensando em aprimorar o serviço, o município fez uma parceria com a Unicamp para ministrar aulas para imigrantes e refugiados no Instituto de Estudo de Linguagem.
Cultura e religião
Os eventos culturais que os haitianos participam são uma forma de apresentar a cultura do povo para outra nação e a integração no novo país, além de ser uma forma de arrecadar recursos financeiros com as vendas de produtos e comidas típicas haitianas.
Costureira, Islaura veio para ajudar na festa mais importante para um haitiano com seu ofício, bordando produtos que foram vendidos no evento, o que era para ser uma viagem de poucos dias, se tornou em um lugar de moradia. “Era para ajudar e ir embora, mas eu gostei do país e decidi ficar”.
DedKra-Z, rapper haitiano que veio para a festa da bandeira disse que sua música está totalmente ligada a data. “A minha música sempre remete a esse marco importante, nela eu falo sobre os antepassados que deram liberdade ao povo haitiano. É bom compartilhar abom compartilhar história da música do Haiti para os brasileiros”.
No dia 18 de maio de 1803 foi criada a bandeira do Haiti, quando Jean Jacques-Dessalines no congresso de Arcahaie rasgou a bandeira francesa retirando a parte branca e costurando a parte azul e vermelha, assim a bandeira se tornou um símbolo da vitória dos revolucionários haitianos sobre os colonos franceses que dominavam o país desde 1697.Em 1º de janeiro de 1804 o país caribenho se desvencilhar totalmente das colônias francesas com a proclamação da independência, assim se tornando o primeiro país com a população de etnia negra a se tornar independente.
No brasão da bandeira haitiana está escrito “A união faz a força” e as músicas de DedKra-Z fazem referência a isso. “ A minha música fala sobre o amor, paz, unidade. Através da música é possível quebrar os limites, as fronteiras. Estou pregando a união e paz para os povos, amando seu próximo”.

O Rapper Ded Kra-Z, a esquerda, além de fazer seu show
na festa da bandeira haitiana, também fez um show na Unicamp
no tempo em que esteve aqui
Entretanto a data que era para ser algo festivo neste ano acabou em o que pode-se dizer, frustração. Em 2017 através da LEI Nº 15.478, na autoria do vereador Cláudio da Farmácia, o dia da comunidade haitiana no calendário oficial da cidade. Em setembro os haitianos de 2018 entraram com ofício pedindo a solicitação da Estação Cultura para um evento de comemoração do dia da bandeira haitiana. A Prefeitura informou a CCHB, por meio do departamento de cultura que o espaço estava confirmado, mas o órgão público também tinha agendado a data para um evento de ferromodelismo no mesmo dia.
O evento teve que ser deslocado para a concha acústica do Taquaral uma semana antes do dia 18. Essa mudança fez com que o evento tivesse poucas pessoas já que região do Taquaral é de difícil acesso para a comunidade haitiana devido a região de concentração deles.

No evento tinha apenas alguns haitianos que estava organizando
do evento e a RAIR
A CCHB pensa no evento do ano que vem. A ONG quer trazer um artista plástico haitiano para fazer quadros e pensa em fazer palestras voltadas para estudantes ensinado o crioulo e o francês e sobre a cultura haitiana. “Não queremos que o Brasil seja um país só de português, queremos que o Brasil seja um país de poliglotas”.
No Haiti 80% da população é cristã, segundo o livro “Imigração Haitiana no Brasil”, publicado pela editora Paco Editorial em 2017.Isso explica por que grande parte dos haitianos vem ou procuram instituições cristãs quando chegam no Brasil. Em Barão Geraldo, um dos bairros de concentração haitiana se encontra a igreja evangélica Cristo Salva, onde o pastor titular João Roberto Vilela ofereceu o espaço para que eles pudessem cultuar. O pastor Jean Frid, de 32 anos, e que está no Brasil há 2 anos e 8 meses fala que a comunidade estava procurando um lugar onde pudessem adorar a Deus. “O pastor Antônio, que era o líder desta igreja, abriu as portas para nós fazermos um culto em língua haitiana”.

O pastor Jean Frid, se casou recentemente em uma
cerimônia aberta para toda igreja poder prestigiar
o momento feliz do casal
O culto acontece nas manhãs de domingo com orações e louvores. Algumas músicas que são tocadas na igreja são louvores brasileiros adaptados para língua crioula. Após uma hora de cânticos e louvor, há um pequeno tempo para os membros da igreja darem testemunho de bênçãos que ocorreram em suas vidas e após isso tem o ofertório e então começa a pregação que normalmente ocorre uma tradução simultânea para os membros brasileiros que estão na igreja.
Chener Paulime que faz parte da liderança da igreja disse que os cultos eram parecidos com o que eles tinham no Haiti. “Nosso intuito é sempre cultuar a Deus, mas isso também mata um pouco a saudade de casa”.

Independente das dificuldades que os haitianos passaram,
eles nunca perderam sua fé em Deus







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